quinta-feira, 8 de julho de 2010

Muy Amiga

No escritório de contabilidade.
-Tenho medo.
- Quem não tem?
- Mas é que o meu é diferente, sabe quando dói o coração?
- Onde já se viu... Medo não dói o coração!
- Meu medo é daqueles que dói o coração sim! Além disso, rói minhas unhas e morde meus lábios.
- Quer que eu chame alguém?
- Acho que não precisa...
- Afinal, tem medo de quê?
- Não sei...
- Acho que está só querendo chamar minha atenção, como se eu não tivesse nada para fazer.
- Consegue ver aquela pessoa lá da rua, aquele homem com blusa vermelha bem ao lado daquele carro verde?
- Sim, um meio loiro?
- É meu namorado.
- Nossa, amiga, parabéns, ele é lindo! Com um homem desses ao teu lado tem medo de quê? Já olhou o calendário? Deve ser TPM.
- Pode ser... Sabe o que ele me disse ontem? Que eu preciso amar mais.
- Amar no sentido de sexo? Ele fala fazer amor? Iiih, não é gay, não?
- Não, não é no sentido de sexo, até porque há tempos não fazemos, ele diz no sentido da palavra mesmo, ele é poeta.
- Gay?
- Não! Quer dizer... Você acha?
- Ai, não sei, o Pedro não tem cara de gay.
- É, não tem, mas como sabe o nome dele?
- Ah, chutei um nome comum qualquer, acertei? Que coisa!
- De onde conhece o Pedro?
- Sabe que eu também estou sentindo medo.
- Ah é? Será que é uma premonição coletiva?
- Passou.
- O medo?
- Não, um carro na frente do Pedro, quase que foi atropelado, acho que ele tá vindo pra cá.
- Será que ele vai entrar? Ai, como estou?
- Sabe que essa blusa te favorece, para de luxo.

Pedro entra.

- Soraia, preciso te dizer uma coisa.
- Diz logo, Pedro, já estava com medo antes mesmo de saber que ia receber alguma notícia, sabe aquela coisa de sexto sentido feminino?
- Acabei de pegar meu exame de sangue...
- E daí? Tá com o colesterol alto? Já falei para comer menos gordura, isso ainda vai te matar.
- Tenho HIV.

A temperatura desceu inquieta ao grau mais baixo do sentimentalismo contido. Soraia chorou o frio da nova vida que viria com aquela maldita que havia se instalado em seu corpo. Silêncio. Na mente de Paula vendo o olhar triste e saliente de Pedro para ela:

- Ainda bem que a camisinha não estourou.

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