Folha seca sem vida
Foi feita vida sem querer
Sem medo ou vergonha caiu ao mundo
Sê adulto!
Sê fruto!
Sê o que tiver de ser...
Folha de quem for,
fora folha ao amanhecer
mal me quer ou bem me quer,
nada importa.
Caiu ao mundo ao acaso durante a noite
Abaixo dela havia alguém [eu?]
Braços abertos a espera de quem? [alguém?]
O céu não pariu ninguém!
O pensamento vai contrário à gravidade,
Caí ao mundo feito folha seca.
Se se cai no escuro por opção
Não se tem na cabeça muita coisa
A solidão é maior que a inclusão
Na terra onde o céu é mais bonito
E o outono menos cruel.
sábado, 24 de outubro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
E por isso somos feios, por não querer mais ser. Desprovemo-nos do que nos restava pelo simples fato de não saber mais o que fazer com a vida. Nas segundas, o dia sempre acorda amargo. Nas noites do domingo, sempre se dorme com pesar e as quartas são sempre cinzas, mesmo que não chova.
Somos feios também por padronizar a beleza, por não mais individualizar as qualidades, massificando o agradável e o desagradável, impondo limites e falhas uniformes, sendo uma pessoa só dentre outras tantas bilhões. O mundo deseja ser uma pessoa só. A pessoa que está na capa da revista, na televisão e que não é de verdade.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
A esperança fica em baixa perto do cinza faraônico da metrópole. O sentimento que outrora caminhava junto aos sonhadores, hoje, se estes ainda existirem, trazem consigo uma revolta tímida, muitas vezes forjada. Intrigante. Revolta sempre foi motivo para mudanças de resultados positivos para o todo. Pode ser que o dicionário tenha mudado ou o medo esteja maior que revolta. A sociedade desde o seu princípio foi marcada por mentes que tentaram mudar sua realidade através de atitudes divergentes à normalidade injusta, onde foi parar o espírito revolucionário? Ele é relevante no aspecto social da globalização onde tudo é padronizado? Não fazem mais Guevaras como antigamente.
A sociedade vertical estabelece padrões desnecessários para a sobrevivência entre as pessoas. O que foge à regra, se torna errado e merecedor de olhares tortos. Sem a necessidade disso, aqueles que ficam às margens sociais se enclausuram em suas idéias de igualdade humanamente, ou socialmente impossíveis. Comparar-se então, se torna uma prática diária de qualquer vivente capitalista.
Adianta querer mudar, ao passo que as mudanças são mandadas diariamente para dentro de casa de forma igualitariamente pré-definidas? Hoje é a TV que liga e desliga sozinha, que tem três dimensões e uma imagem nunca antes imaginada. E amanhã? Será que amanhã esta será de fato uma realidade, e como toda realidade será real para a maioria da população? Difícil.
O fato é que a sociedade vem se afunilando para a perfeição aparente. Uma vida de ostentação. O mundo tem ETs que são daqui mesmo. É, desses que andam em máquinas superpoderosas, que têm olhos biônicos e tecnologia avançada. O bom brasileiro - ou de qualquer outra nacionalidade que não viva no estandarte do luxo -, diz que não existe e que só pode ser coisa do cinema de Hollywood, daquele diretor famoso que nunca se lembra do nome e lendo o jornal, diz que tudo é fase. Fase de pobreza, fase de miséria, fase de comprar uma geladeira nova e a fase da indiferença, quando acaba? Toda fase tem um fim, não é? A geladeira nova fica velha, a pobreza aumenta e a indiferença está sempre ali.
A menos que o mundo acorde, que as pessoas passem a respirar o seu próprio ar e sejam felizes com aquilo que realmente são, esquecendo das devoções a ícones e padrões, as pernas do jargão “sistema” caminharão cada vez mais para a exclusão. Coitadas são as crianças que nascem hoje fora do berço de ouro. Tudo agrega, mas se aprendeu rapidamente a subtrair, o mundo corre o sério risco de terminar em saldo negativo, e aí, a culpa é de quem?
A sociedade vertical estabelece padrões desnecessários para a sobrevivência entre as pessoas. O que foge à regra, se torna errado e merecedor de olhares tortos. Sem a necessidade disso, aqueles que ficam às margens sociais se enclausuram em suas idéias de igualdade humanamente, ou socialmente impossíveis. Comparar-se então, se torna uma prática diária de qualquer vivente capitalista.
Adianta querer mudar, ao passo que as mudanças são mandadas diariamente para dentro de casa de forma igualitariamente pré-definidas? Hoje é a TV que liga e desliga sozinha, que tem três dimensões e uma imagem nunca antes imaginada. E amanhã? Será que amanhã esta será de fato uma realidade, e como toda realidade será real para a maioria da população? Difícil.
O fato é que a sociedade vem se afunilando para a perfeição aparente. Uma vida de ostentação. O mundo tem ETs que são daqui mesmo. É, desses que andam em máquinas superpoderosas, que têm olhos biônicos e tecnologia avançada. O bom brasileiro - ou de qualquer outra nacionalidade que não viva no estandarte do luxo -, diz que não existe e que só pode ser coisa do cinema de Hollywood, daquele diretor famoso que nunca se lembra do nome e lendo o jornal, diz que tudo é fase. Fase de pobreza, fase de miséria, fase de comprar uma geladeira nova e a fase da indiferença, quando acaba? Toda fase tem um fim, não é? A geladeira nova fica velha, a pobreza aumenta e a indiferença está sempre ali.
A menos que o mundo acorde, que as pessoas passem a respirar o seu próprio ar e sejam felizes com aquilo que realmente são, esquecendo das devoções a ícones e padrões, as pernas do jargão “sistema” caminharão cada vez mais para a exclusão. Coitadas são as crianças que nascem hoje fora do berço de ouro. Tudo agrega, mas se aprendeu rapidamente a subtrair, o mundo corre o sério risco de terminar em saldo negativo, e aí, a culpa é de quem?
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Ela temia o futuro como se fosse algo que pudesse agarrá-la, tirá-la do prumo de fazer com que ela desistisse da vida. Sempre fora assim, desde pequena. Este medo do futuro fazia com que tudo na sua vida fosse regido pelo passado, um fantasma ou outro que já fizera parte de sua curta vida ditava as regras do amanhã. Por fim, seus dias eram sempre iguais ao ontem, não inovavam, não ganhavam o brilho do desconhecido.
Acordava sempre na mesma hora, com o mesmo despertador ganhado da mãe no natal de 1997, quando de fato passou a precisar de um ao sair das asas maternas. Esse fora um ato heróico para ela, que se dependesse única e exclusivamente de sua opinião, ficaria em casa o resto da vida. Passou a perceber que as roupas não perdiam os amarrotados sozinhas, que a comida não vinha pronta do mercado (até descobrir o microondas) e que a casa não tinha um botão autoclean. Mesmo assim, temia.
Temia não acordar, temia perder a memória, temia, temia e temia. Andava a passos curtos e lentos com medo de lesionar tendões. Mantinha fixos, na bolsa, um casaco e um guarda-chuva no caso de uma mudança repentina no tempo. Alguém fora do seu mundo particular chegaria certamente à conclusão que ela não pertencia a vida dela. E de fato era assim.
Boa família, bons pais, boa criação e educação. Em algum ponto essa sua insegurança deveria ser explicada, mas não havia como. Numa manhã cinzenta o despertador tocou diferente. Não era mais aquela música do desenho da TV vivaz e ampla, ele estava fraco, quase parando. Aquilo pra ela foi algo tenebroso, com medo ela apertou o botão soneca para dormir mais quinze minutos, como sempre. Dormiu mais duas horas. Ir ao trabalho e chegar atrasada ou ficar em casa e forjar uma doença? Era uma situação inusitada para alguém grudada à rotina. Por fim, foi.
Ônibus, catraca, troco, suor, sol do meio dia, chefe bufando. O futuro indiferente ao passado em fração de minutos passou a fazer parte da sua vida. Construir um destino foi novidade para ela, feito astróloga ela foi adivinhando os próximos segundos como se tudo fluísse em sua mente. Briga, demissão, último café na empresa, lágrimas, fim. Não fim da vida, ela teria muitos amanhãs pela frente, fim de um ciclo de quem vê a vida sem a sua principal essência.
Apesar de o termo essência de vida ser um tanto vago e relativo, ela passou a procurar a dela. Ainda de olhos marejados pelas lágrimas jogou o despertador fora, pilhas novas não resolveriam sua vida. A palavra nova soava com receio em suas sinapses nervosas, novidades, mudanças. Percebeu que havia crescido, tornara-se adulta sem querer. Quase sem querer ia despedindo-se da vida sem ao menos notar. Clarice tinha razão, pensou, o adulto é triste e solitário e isso não era apenas uma comunidade do site de relacionamentos mais famoso, era uma realidade na vida dela.
Pensava apenas nela, no que vinha dela e o que ia para ela, esqueceu que ao seu redor havia um mundo que indiretamente dependia dos feitos dela. Passou pela sua mente um filme de vivências negadas: caras pintadas, muros caídos, guerras, mortes, fome, miséria, desigualdade o mundo desabando e ela apenas preocupada com um medo bobo de não mais acordar, vivendo no ontem. O que a confortou foi o fato de saber que ela não era a única a estar de braços cruzados em relação ao mundo, infelizmente e isso a entristeceu da mesma forma que a alegrou, um sentimento antitético que a fez acordar para a vida, o despertador que sua mãe não dera. Nas mãos dela, o relógio de ponteiros parados delimitava claramente a sua situação, sem saber para onde andar, para qual lado ir, ela jogou o despertador no lixo. Ver os seus limites e definições alheias irem para dentro de cesto de lixo e espatifarem-se com o impacto despertou-a mais que a música da TV.
Resolveu, depois de anos sem, assistir a noticiários. Em alguns casos, não assisti-los faz bem, quando se é preocupado demais com o mundo, quando os olhos já são mais alarmantes que a vinheta do plantão, não era o caso dela. Não adiantava mais colocar faixas na janela “Yes, we can!”, não valia à pena deixar de lado tudo e viver uma experiência sociológica de igualdade social com os mendigos, não adiantava. Estava tão agarrada a sua maneira de viver, que as divagações duraram outros quinze minutos. Abriu a porta do freezer, pegou um pote de sorvete de creme que persistia ali por meses, uma colher e chorou. Chorou por não ser a única a perder a habilidade de construir a vida. O medo dela havia mudado de forma, se evoluiu ou se regrediu, não se sabe. Ela tinha medo, agora, de nunca poder ser aquilo que ela tinha noção que deveria ser e não era. Sozinha ela lamentou a sua atitude estática de negar o que se é.
Acordava sempre na mesma hora, com o mesmo despertador ganhado da mãe no natal de 1997, quando de fato passou a precisar de um ao sair das asas maternas. Esse fora um ato heróico para ela, que se dependesse única e exclusivamente de sua opinião, ficaria em casa o resto da vida. Passou a perceber que as roupas não perdiam os amarrotados sozinhas, que a comida não vinha pronta do mercado (até descobrir o microondas) e que a casa não tinha um botão autoclean. Mesmo assim, temia.
Temia não acordar, temia perder a memória, temia, temia e temia. Andava a passos curtos e lentos com medo de lesionar tendões. Mantinha fixos, na bolsa, um casaco e um guarda-chuva no caso de uma mudança repentina no tempo. Alguém fora do seu mundo particular chegaria certamente à conclusão que ela não pertencia a vida dela. E de fato era assim.
Boa família, bons pais, boa criação e educação. Em algum ponto essa sua insegurança deveria ser explicada, mas não havia como. Numa manhã cinzenta o despertador tocou diferente. Não era mais aquela música do desenho da TV vivaz e ampla, ele estava fraco, quase parando. Aquilo pra ela foi algo tenebroso, com medo ela apertou o botão soneca para dormir mais quinze minutos, como sempre. Dormiu mais duas horas. Ir ao trabalho e chegar atrasada ou ficar em casa e forjar uma doença? Era uma situação inusitada para alguém grudada à rotina. Por fim, foi.
Ônibus, catraca, troco, suor, sol do meio dia, chefe bufando. O futuro indiferente ao passado em fração de minutos passou a fazer parte da sua vida. Construir um destino foi novidade para ela, feito astróloga ela foi adivinhando os próximos segundos como se tudo fluísse em sua mente. Briga, demissão, último café na empresa, lágrimas, fim. Não fim da vida, ela teria muitos amanhãs pela frente, fim de um ciclo de quem vê a vida sem a sua principal essência.
Apesar de o termo essência de vida ser um tanto vago e relativo, ela passou a procurar a dela. Ainda de olhos marejados pelas lágrimas jogou o despertador fora, pilhas novas não resolveriam sua vida. A palavra nova soava com receio em suas sinapses nervosas, novidades, mudanças. Percebeu que havia crescido, tornara-se adulta sem querer. Quase sem querer ia despedindo-se da vida sem ao menos notar. Clarice tinha razão, pensou, o adulto é triste e solitário e isso não era apenas uma comunidade do site de relacionamentos mais famoso, era uma realidade na vida dela.
Pensava apenas nela, no que vinha dela e o que ia para ela, esqueceu que ao seu redor havia um mundo que indiretamente dependia dos feitos dela. Passou pela sua mente um filme de vivências negadas: caras pintadas, muros caídos, guerras, mortes, fome, miséria, desigualdade o mundo desabando e ela apenas preocupada com um medo bobo de não mais acordar, vivendo no ontem. O que a confortou foi o fato de saber que ela não era a única a estar de braços cruzados em relação ao mundo, infelizmente e isso a entristeceu da mesma forma que a alegrou, um sentimento antitético que a fez acordar para a vida, o despertador que sua mãe não dera. Nas mãos dela, o relógio de ponteiros parados delimitava claramente a sua situação, sem saber para onde andar, para qual lado ir, ela jogou o despertador no lixo. Ver os seus limites e definições alheias irem para dentro de cesto de lixo e espatifarem-se com o impacto despertou-a mais que a música da TV.
Resolveu, depois de anos sem, assistir a noticiários. Em alguns casos, não assisti-los faz bem, quando se é preocupado demais com o mundo, quando os olhos já são mais alarmantes que a vinheta do plantão, não era o caso dela. Não adiantava mais colocar faixas na janela “Yes, we can!”, não valia à pena deixar de lado tudo e viver uma experiência sociológica de igualdade social com os mendigos, não adiantava. Estava tão agarrada a sua maneira de viver, que as divagações duraram outros quinze minutos. Abriu a porta do freezer, pegou um pote de sorvete de creme que persistia ali por meses, uma colher e chorou. Chorou por não ser a única a perder a habilidade de construir a vida. O medo dela havia mudado de forma, se evoluiu ou se regrediu, não se sabe. Ela tinha medo, agora, de nunca poder ser aquilo que ela tinha noção que deveria ser e não era. Sozinha ela lamentou a sua atitude estática de negar o que se é.
E quando me disseram que tinha uma pedra no meio do caminho, eu não acreditei. É muito relativo pensar que em todo caminho há uma pedra, mas é um fato incontestável. Muitos dizem que a pedra de Drummond é sem conteúdo e digna de uma criança de quarta, no máximo quinta, série. Eu digo que não. Tudo bem que não sou ninguém ou alguém de irrelevância no parâmetro social mundial, mas vale a pena expor a opinião, ao passo que uma opinião é sempre uma opinião independente de onde ou de quem ela venha.
Se ao caminhar, num dias desses mergulhados na rotina, Drummond encontrou uma pedra no seu caminho isso se assemalharia a nossas vidas, visto que foram muitas as vezes em que eu ou qualquer outra pessoa andante deste mundo esbarramos com uma pedra enquanto rumavam nossos destinos. Mas se não for uma pedra a pedra de Drummond? Essa pedra, para mim, não tem nada de rochoso, piroso, betuminoso ou qualquer outra coisa que se aprende nas aulas de geografia, foi uma tuberosidade na literatura.
Literatura é uma foto da sociedade. Pegando os livros ou papiros antigos vemos que os autores (quando não ficção) abordam temas que expressam a sua indignação com a realidade que os cerca. Até mesmo Shakespeare (de grafia duvidosa), em suas peças e novelas expunha seu pensamento renascentista mesmo vivendo no auge da era elizabetana e no ápice do anglicanismo, quando as rédeas eram mais frouxas, denunciava a unidirecionalidade das relações onde todos viam a maior expressão do amor, e os exemplos excedem a trágica peça Romeu e Julieta. Hamlet, por sua vez, fala da insanidade intrínseca ao ser humano, fato ou não, as suas cinco horas originais de duração acabavam fazendo com que os espectadores acharem insano quem escreveu e não mais o personagem .
O bom brasileiro diria: "Shakespeare é Shakespear, meu amigo!". A mania de adorar a cultura inglesa ainda existe nos dias de hoje, mesmo depois de o inglês ver muita coisa. Eu diria "Drummond é Drummond". Sei que não estou sozinho nessa teoria nacionalista, além de Policarpo Quaresma, entram na lista outros tantos brasileiros que têm por gosto ler, assistir o que é nosso. Mas essa é a pedra? Não, eu acho que não. E se nem José responde o que é essa pedra, quem responderá?
A relatividade de um objeto abre um leque de possibilidades na interpretação. Particularmente, a pedra será sempre atual e mesmo com retinas fatigadas, veremos que há mais pedras que flores no nosso caminho e se estas existem, possuem mais espinhos que pétalas. Há quem tenha o prazer em chutar pedras, há quem tenha medo delas, prefiro apenas olhar. Existe uma pedra no meio do caminho de todo mundo, repetidas vezes, pedras no meio do caminho, no meio do caminho existem pedras. Ser ou não ser passa a não ser mais uma questão de escolha, haja vista a quantidade de pedras, sendo essa a semântica de expressão, prefiro me abster à ignorância e pular essa pedra, assim como as outras, outras e outras. E pra finalizar o texto com uma oração condicional seguindo o padrão do resto dele, se o leitor atentar à quantidade de vezes em que o substantivo "pedra" (no plural ou singular) aparece nas linhas anteriores verá que Drummond estava tão certo quando Shakespeare ao dizer que as frases dele durariam mais que o ouro ou o marfim das estátuas, há sim uma pedra no meio dos caminhos, sejam eles literais ou reais.
Se ao caminhar, num dias desses mergulhados na rotina, Drummond encontrou uma pedra no seu caminho isso se assemalharia a nossas vidas, visto que foram muitas as vezes em que eu ou qualquer outra pessoa andante deste mundo esbarramos com uma pedra enquanto rumavam nossos destinos. Mas se não for uma pedra a pedra de Drummond? Essa pedra, para mim, não tem nada de rochoso, piroso, betuminoso ou qualquer outra coisa que se aprende nas aulas de geografia, foi uma tuberosidade na literatura.
Literatura é uma foto da sociedade. Pegando os livros ou papiros antigos vemos que os autores (quando não ficção) abordam temas que expressam a sua indignação com a realidade que os cerca. Até mesmo Shakespeare (de grafia duvidosa), em suas peças e novelas expunha seu pensamento renascentista mesmo vivendo no auge da era elizabetana e no ápice do anglicanismo, quando as rédeas eram mais frouxas, denunciava a unidirecionalidade das relações onde todos viam a maior expressão do amor, e os exemplos excedem a trágica peça Romeu e Julieta. Hamlet, por sua vez, fala da insanidade intrínseca ao ser humano, fato ou não, as suas cinco horas originais de duração acabavam fazendo com que os espectadores acharem insano quem escreveu e não mais o personagem .
O bom brasileiro diria: "Shakespeare é Shakespear, meu amigo!". A mania de adorar a cultura inglesa ainda existe nos dias de hoje, mesmo depois de o inglês ver muita coisa. Eu diria "Drummond é Drummond". Sei que não estou sozinho nessa teoria nacionalista, além de Policarpo Quaresma, entram na lista outros tantos brasileiros que têm por gosto ler, assistir o que é nosso. Mas essa é a pedra? Não, eu acho que não. E se nem José responde o que é essa pedra, quem responderá?
A relatividade de um objeto abre um leque de possibilidades na interpretação. Particularmente, a pedra será sempre atual e mesmo com retinas fatigadas, veremos que há mais pedras que flores no nosso caminho e se estas existem, possuem mais espinhos que pétalas. Há quem tenha o prazer em chutar pedras, há quem tenha medo delas, prefiro apenas olhar. Existe uma pedra no meio do caminho de todo mundo, repetidas vezes, pedras no meio do caminho, no meio do caminho existem pedras. Ser ou não ser passa a não ser mais uma questão de escolha, haja vista a quantidade de pedras, sendo essa a semântica de expressão, prefiro me abster à ignorância e pular essa pedra, assim como as outras, outras e outras. E pra finalizar o texto com uma oração condicional seguindo o padrão do resto dele, se o leitor atentar à quantidade de vezes em que o substantivo "pedra" (no plural ou singular) aparece nas linhas anteriores verá que Drummond estava tão certo quando Shakespeare ao dizer que as frases dele durariam mais que o ouro ou o marfim das estátuas, há sim uma pedra no meio dos caminhos, sejam eles literais ou reais.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
A hora do rei
Apoiou-se com a mão direita na mesa, com a outra segurava o cigarro que tragava quase que se exibindo. “Sei que fumar em local fechado é proibido, mas ainda vou deixar de fumar”, falou isso com certa ironia. Ainda antes de começar sua fala, o motivo da convocação, puxou com o pé um cesto de lixo escondido e cuspiu dentro dele, em seguida, apagou o cigarro na água do vaso que Ivete, a faxineira, tinha gentilmente colocado como decoração. “Pessoas assim importantes quando fazem reuniões, gostam de um arranjinho na mesa” disse ela quando arrumou o auditório. O homem tão importante tinha costeletas enormes que emendavam com o bigode amarelado pela nicotina. Isso não é uma campanha contra o cigarro, no entanto, aquela amarelidão que combinava com as pontas dos dedos era da nicotina, sem sombra de dúvidas. Começou então a fala tão esperada:
- Senhores! (pausa) – mancando, mostrando um possível bico de papagaio, hérnia de disco, ou qualquer outro problema na coluna que o tirava do prumo, da angulação normal de qualquer homem normal. Deu três passos bem lentamente, posicionou-se em frente de um quadro negro (Cálculos em silêncio).- Acredito senhores - prosseguiu o rengo, o qual também era gordo - que hoje sairemos daqui com uma nova mentalidade com relação a nós mesmos e nossa luta diária.(pausa)
– Tomou água que a Ivete tinha deixado e falou: Que calor!
- Mesmo sabendo de nossas dificuldades e limites – as quais eram evidenciadas pelas sérias debilitações físicas do falante – devemos aliar a rotina à doutrina do desapego, esquecer que somos diariamente julgados pelo o que aparentamos ser.
Mesmo que o assunto o empolgasse, o velho penteava o bigode amarelado sabendo que a sociedade e seus problemas não era o motivo principal da reunião. A pauta abrangia muito mais que um discurso socialista, comunista, anarquista, capitalista, ou qualquer outro manifesto que envolvesse o entorno e a interação do meio com o mesmo. Aquele homem, roçado pelo tempo, gasto pelos dias e maltratado pelas horas estava prestes a revelar aos seus sócios a descoberta de sua vida. Ivete, a empregada, admirava muito aquele homem, lamentava que ele gastasse tanto com cigarros. No fundo, nutria um sentimento platônico, mesmo sendo casada e mãe de quatro filhos. Procurava sempre suprir as necessidades do velho visivelmente adoentado, mas quando ele falava, Ivete ia às nuvens e pensava como alguém poderia ter engolido a Barsa e digerido-a com enzimas de conhecimento.
- Caríssimos, ao longo de minha vida, estudei muito e li sobre muita coisa. Nada do que meus míopes olhos fitaram é comparável a que tenho para revelar – um acesso de tosse acometeu o pobre homem torto, mas mesmo entre tosses, com voz cansada, continuava o discurso – não espero de vocês algo menos que o espanto, o que me refiro, supera os limites físicos.
A essas alturas, os ouvintes já se mostravam temerosos. O homem também de bigode que ficava na primeira fila não parava de alisar os fios demonstrando nervosismo, a mulher ao lado dele alternava o cruzar de pernas e feito coreografia tornava externa a sua aflição.
- O homem depende exclusivamente do seu autocontrole – a revelação estava próxima. O coração do velho palpitava feito coelho em disparada, o que tanto esperou de fato estava acontecendo, proliferaria a sua idéia.- Não somos ninguém perante a natureza!
O corpo não respondia aos reflexos, os neurônios não estavam mais em harmonia. A orquestra de sua vida desentoava perante aquela assembléia que atônita, pensava assistir a um comício nunca antes imaginado. Contorcendo-se e balbuciando, gemendo e quase chorando veio ao chão.
- Bravo! É de homens assim que o nosso país precisa, meu voto é seu, sempre soube da sua aptidão para a política e que hora ou outra iria aflorar. Bravo! – exclamou em êxtase o homem do bigode.Em coro os outros ouvintes seguiam o exemplo do primeiro manifestante, gritavam a vitória do defunto.
Saíram planejando campanhas, propagandas e correções na feiúra do candidato através de programas de computador para dar um tom angelical a imagem certamente abominável dos “santinhos”.Ivete, como sempre, emocionou-se com tudo, achou tudo muito lindo mesmo não tendo entendido parte das palavras, algumas, inclusive, anotara para pesquisar no dicionário. Pela primeira vez, foi felicitar o homem.
- Doutor, foi tudo muito lindo, parecia um rei... Doutor?
O que respondeu foi o óbito. O pobre homem que via o mundo a trinta graus para a esquerda não fez a revelação, não chegou ao objetivo, mas morreu como rei.
Texto escrito com meu pai, José Genario Machado (http://www.jmachadolg.blogspot.com)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Espalhando óbito e sangue pelo asfalto, um mendigo põe fim à rotina urbana. Caos temporal, tic-tac, triim!. Poucos param para ver a cena, um homem maltrapilho jogado ao chão, exalando morte. Não fora culpa dele, dizem ter sido da sociedade. Onde está o coveiro? Ali ficou o indigente esperando o IML levar seu corpo. Numa inércia eterna não contava nem com a auto-ajuda, solitário por entre a multidão que, mesquinhamente, rumava seu futuro.
O que difere o futuro do tal mendigo ao do homem engravatado da esquina? São diferentes por convenção. O futuro, além do pretérito e perfeito das conjugações verbais (valeria e valerá), é conceitualmente igual a todos: um nada. Intangível, intocável, solitário. O homem morto, vestindo seus farrapos fazia vezes de futuro, era dele o amanhã, o ontem e o hoje, apesar de não possuir mais nada além da alma – limita-se, então, a existência ao triste fardo de transformar-se em ectoplasma, independente de qual seja a crença do leitor – e quantas outras desgarrariam do corpo naquele exato momento em que o ônibus o atropelara?
Chega o momento em que já se tem uma meia dúzia de espectadores para a morte. Quem diria! Uhh! Ahh! Ichh! Exclamações que representavam a repulsa humana com o seu futuro. Sim, pois não daquela forma, mas de outra, todos cheirarão a óbito, assim como o pobre andarilho. O medo é esse, igualar-se a um inferior. O homem engravatado pensa “menos um para aumentar a escória”. Escória por escória, ele também fazia parte daquela casta onde tudo é bonito mesmo sendo feio: a escória que mente ser legal, que finge ser normal.
Normalidade é outro termo que intriga. O maltrapilho também era normal, normalmente caminhava, via, lia, sorria... Cadê a anormalidade? “Ah, mas ele não tem uma casa, uma família, um carro, negócios e contas. Quem paga a estadia dele nesse mundo são os meus impostos”. A casa era o mundo, a família era o povo, o carro eram as pernas, os negócios eram as conversas e as contas... Há tantas formas de se pagar a dívida vitalícia com a sociedade, a do mendigo era simplesmente não dar trabalho a ela, não ser mais um a somar com mais um ponto negativo.
DROGADO! VICIADO! Por vezes perdeu-se nos vícios, provou de um tudo na rua. Há de se convir que o mundo da rua seja uma dimensão paralela ao mundo florido do consumo. Aí está o vício! Este sim consome denigre e corrói o pensamento. Consumistas de plantão deixavam o perfume do dinheiro nas narinas intragáveis do corpo. E nada se abalavam, continuavam sua maratona do “Goste, compre. Pague quando der”. A culpa não é de ninguém. È?
Intrínseco à sociedade está a culpa de ser inocente. É muito fácil pôr a responsabilidade de tudo na sociedade ou no famoso jargão “sistema”. Se for o capitalismo o motivo da morte do mendigo não se sabe, ou do consumo ou até mesmo da indiferença humana a seu “irmão de espécie”. No fundo do fundo, a humanidade é animalesca por pensar demais, o homem que pensa que pensa, não sabe pensar. Encabrestados pelo egoísmo seguem em frente os homens, menos o mendigo, que atrapalhou a terça-feira, o trânsito, a vida, a vida, a vida, a vida, a vida e a vida da meia dúzia de mentes que inalou o seu óbito.
O que difere o futuro do tal mendigo ao do homem engravatado da esquina? São diferentes por convenção. O futuro, além do pretérito e perfeito das conjugações verbais (valeria e valerá), é conceitualmente igual a todos: um nada. Intangível, intocável, solitário. O homem morto, vestindo seus farrapos fazia vezes de futuro, era dele o amanhã, o ontem e o hoje, apesar de não possuir mais nada além da alma – limita-se, então, a existência ao triste fardo de transformar-se em ectoplasma, independente de qual seja a crença do leitor – e quantas outras desgarrariam do corpo naquele exato momento em que o ônibus o atropelara?
Chega o momento em que já se tem uma meia dúzia de espectadores para a morte. Quem diria! Uhh! Ahh! Ichh! Exclamações que representavam a repulsa humana com o seu futuro. Sim, pois não daquela forma, mas de outra, todos cheirarão a óbito, assim como o pobre andarilho. O medo é esse, igualar-se a um inferior. O homem engravatado pensa “menos um para aumentar a escória”. Escória por escória, ele também fazia parte daquela casta onde tudo é bonito mesmo sendo feio: a escória que mente ser legal, que finge ser normal.
Normalidade é outro termo que intriga. O maltrapilho também era normal, normalmente caminhava, via, lia, sorria... Cadê a anormalidade? “Ah, mas ele não tem uma casa, uma família, um carro, negócios e contas. Quem paga a estadia dele nesse mundo são os meus impostos”. A casa era o mundo, a família era o povo, o carro eram as pernas, os negócios eram as conversas e as contas... Há tantas formas de se pagar a dívida vitalícia com a sociedade, a do mendigo era simplesmente não dar trabalho a ela, não ser mais um a somar com mais um ponto negativo.
DROGADO! VICIADO! Por vezes perdeu-se nos vícios, provou de um tudo na rua. Há de se convir que o mundo da rua seja uma dimensão paralela ao mundo florido do consumo. Aí está o vício! Este sim consome denigre e corrói o pensamento. Consumistas de plantão deixavam o perfume do dinheiro nas narinas intragáveis do corpo. E nada se abalavam, continuavam sua maratona do “Goste, compre. Pague quando der”. A culpa não é de ninguém. È?
Intrínseco à sociedade está a culpa de ser inocente. É muito fácil pôr a responsabilidade de tudo na sociedade ou no famoso jargão “sistema”. Se for o capitalismo o motivo da morte do mendigo não se sabe, ou do consumo ou até mesmo da indiferença humana a seu “irmão de espécie”. No fundo do fundo, a humanidade é animalesca por pensar demais, o homem que pensa que pensa, não sabe pensar. Encabrestados pelo egoísmo seguem em frente os homens, menos o mendigo, que atrapalhou a terça-feira, o trânsito, a vida, a vida, a vida, a vida, a vida e a vida da meia dúzia de mentes que inalou o seu óbito.
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