quarta-feira, 19 de agosto de 2009

E quando me disseram que tinha uma pedra no meio do caminho, eu não acreditei. É muito relativo pensar que em todo caminho há uma pedra, mas é um fato incontestável. Muitos dizem que a pedra de Drummond é sem conteúdo e digna de uma criança de quarta, no máximo quinta, série. Eu digo que não. Tudo bem que não sou ninguém ou alguém de irrelevância no parâmetro social mundial, mas vale a pena expor a opinião, ao passo que uma opinião é sempre uma opinião independente de onde ou de quem ela venha.
Se ao caminhar, num dias desses mergulhados na rotina, Drummond encontrou uma pedra no seu caminho isso se assemalharia a nossas vidas, visto que foram muitas as vezes em que eu ou qualquer outra pessoa andante deste mundo esbarramos com uma pedra enquanto rumavam nossos destinos. Mas se não for uma pedra a pedra de Drummond? Essa pedra, para mim, não tem nada de rochoso, piroso, betuminoso ou qualquer outra coisa que se aprende nas aulas de geografia, foi uma tuberosidade na literatura.
Literatura é uma foto da sociedade. Pegando os livros ou papiros antigos vemos que os autores (quando não ficção) abordam temas que expressam a sua indignação com a realidade que os cerca. Até mesmo Shakespeare (de grafia duvidosa), em suas peças e novelas expunha seu pensamento renascentista mesmo vivendo no auge da era elizabetana e no ápice do anglicanismo, quando as rédeas eram mais frouxas, denunciava a unidirecionalidade das relações onde todos viam a maior expressão do amor, e os exemplos excedem a trágica peça Romeu e Julieta. Hamlet, por sua vez, fala da insanidade intrínseca ao ser humano, fato ou não, as suas cinco horas originais de duração acabavam fazendo com que os espectadores acharem insano quem escreveu e não mais o personagem .
O bom brasileiro diria: "Shakespeare é Shakespear, meu amigo!". A mania de adorar a cultura inglesa ainda existe nos dias de hoje, mesmo depois de o inglês ver muita coisa. Eu diria "Drummond é Drummond". Sei que não estou sozinho nessa teoria nacionalista, além de Policarpo Quaresma, entram na lista outros tantos brasileiros que têm por gosto ler, assistir o que é nosso. Mas essa é a pedra? Não, eu acho que não. E se nem José responde o que é essa pedra, quem responderá?
A relatividade de um objeto abre um leque de possibilidades na interpretação. Particularmente, a pedra será sempre atual e mesmo com retinas fatigadas, veremos que há mais pedras que flores no nosso caminho e se estas existem, possuem mais espinhos que pétalas. Há quem tenha o prazer em chutar pedras, há quem tenha medo delas, prefiro apenas olhar. Existe uma pedra no meio do caminho de todo mundo, repetidas vezes, pedras no meio do caminho, no meio do caminho existem pedras. Ser ou não ser passa a não ser mais uma questão de escolha, haja vista a quantidade de pedras, sendo essa a semântica de expressão, prefiro me abster à ignorância e pular essa pedra, assim como as outras, outras e outras. E pra finalizar o texto com uma oração condicional seguindo o padrão do resto dele, se o leitor atentar à quantidade de vezes em que o substantivo "pedra" (no plural ou singular) aparece nas linhas anteriores verá que Drummond estava tão certo quando Shakespeare ao dizer que as frases dele durariam mais que o ouro ou o marfim das estátuas, há sim uma pedra no meio dos caminhos, sejam eles literais ou reais.

3 comentários:

Rafael Costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
angelo pessoa disse...

Grande texto. Não grande pela 'pedra' ou 'pedras', mas pela criatividade da análise. Parabéns!

Gustavo Machado disse...

Angelo, obrigado pelo comentário! Abraço!