quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Para fugir da tempestade


Depois de tanto a chuva cair e o vento soprar, as nuvens estavam tão cansadas a ponto de sumirem, camuflando-se por traz do azul celeste. Abaixo de uma árvore, quebrado e jogado, encontrava-se um guarda-chuva retorcido que ainda chorava gotas da tempestade por não ter conseguido proteger seu dono.
- Veja guarda-chuva, como é insignificante sua existência– disse a árvore - sua armação não suporta a fúria da natureza.
- Dona árvore, muito já protegi meu dono de intempéries, resisti a mãos gatunas em filas bancárias, mas acho que perdi o poder.
- A questão é que nunca tivesse o poder, sempre fosse um mero imitador de minha nobre utilidade. Desde de minha germinação fui protegido por outras árvores, e quando tornei-me forte e robusto comecei a exercer a minha verdadeira função. Não vivo num mundo fictício, sou real e natural.
- Não tiro sua razão. – disse o simplório guarda-chuva - Sou sim imitador de sua utilidade, mas de qualquer forma trazia comodidade aos andarilhos nos dias de chuva, pois apesar de muito útil seus galhos não caminham, são inertes, sensíveis apenas ao balançar do vento. Garanto que durante minha vida muito mais vi e ouvi do que você que ficou esperando a procura para poder ajudar.
- Muito atrevimento de sua parte! – exclamou a árvore sobressaltada – É bom que saiba que há muitos anos havia muito mais árvores do que homens, além de protegê-los elas tinham como obrigação alimentá-los e por esse motivo a qualquer lugar facilmente se encontrava abrigo e conforto no caule das centenárias árvores que além de tudo sempre os presenteavam com belos frutos maduros. Com o passar do tempo, o homem começou a acabar com sua proteção, e não era mais em todo lugar que se via árvores, precisou então procurar outra forma de se alimentar e proteger. Então surge você, desnecessário se a humanidade seguisse seu curso natural.
- Não tenho condições de contradizer a verdade experiente que circula com sua seiva, mas posso defender minha opinião. Não creio que eu e meus irmãos sejamos desnecessários, tudo que nasce tem uma utilidade, se estou aqui é porque tinha que estar. Posso não sentir a força da terra e fazer parte dela, mas sinto o calor das mãos humanas e isso me revigora, mostrando o quão frágil pode ser uma espécie em meio à imensidão da natureza, quando o céu está desabando, faço um mundo a parte, seco e protegido a quem me porta.
As nuvens que outrora se escondiam, resolveram mais uma vez se mostrar fortes e ferozes. Sua fúria fora tão grande que do alto, de onde não se pode pisar, saiu um raio que atingiu a árvore, partindo-a no meio e ponto fogo a cada uma de suas folhas. O tronco forte e resistente aos poucos se transformava em uma cinza fina e delicada, e as folhas caiam gritando de dor.
- Dona árvore, não há força maior do que aquela que age sobre todos nós independente de nossa origem. Não a controlamos somos escravos dela. A natureza, mesmo que sua mãe escolheu o dia de sua morte.
Mesmo agonizando, a árvore uniu suas últimas forças e disse:
- Perceba que mesmo depois de morto terei utilidade, minhas cinzas fecundarão a terra e darão origem a mais semelhantes e você nunca terá outra serventia além de me imitar. Faço parte da terra e ela de mim, você é apenas fruto do comodismo humano e nunca será mais que isso.
Ao ouvir isso, o guarda-chuva, desprendeu a última parte do seu torto e frágil cabo da terra, deixando com que o vento o levasse ao acaso, para onde ele quisesse, para onde ele tivesse que ir.

3 comentários:

Rafael Costa disse...

Mais um badalar de sinos

Aquele foi um grande homem.
Nos seus momentos mais decentes,
carregava um enorme guarda-chuva preto,
pronto para ser armado aos primeiros trejeitos de um dissabor.
Deixava-se estar protegido,
Era mais certo deixar seus olhos não marejarem;
coisa de um grande iluminado.

Sua couraça dava lugar a um emaranhado de sinos,
quando só, como um verdadeiro humano.
As paredes poderiam ouvir
este era mais um guarda-chuva, não preto,
mas de que importa a cor?
A muralha que se é guardada é muito mais concreta
do que colorida.

Mas o que é a dor, senão um emaranhado de sinos?
Os padres tocam suas dores pontualmente,
ao sol radiante, ao sol decadente.
O que seria em vão para o resto, é grandioso aos celibatários.
Esses dois instantes são os únicos êxtases,
os únicos gozos, além de estar com deus o que não é necessariamente um gozo,
é mais um, estar e “ponto”.

Mas não o julguemos assim de longe
talvez a dor seja mais que isso
sabe lá o que se passa na clausura do próprio ser,
quando o estar só, é realmente estar só.
Quando a carne do consolo não o toca para perfazê-lo em vida.
Ele parece mais um homem, sentado em seu banco em plena praça
derramando lágrimas pelo nada para que no futuro tenha o tudo...

tudo o que se pode chamar de compaixão,
o que ele não tem no momento.

Rafael Costa disse...

Pra fugir da tempestade, nada como um bom e velho guarda chuva.

henz disse...

Meus parabens!
Leio tuas postagens quando o tempo me permite.
Mais sem dúvida.Tens um grande talento.

Um grande abraço!
Que você continue a ser iluminado pelo caminho que nos leva ao sol.