sexta-feira, 13 de março de 2009

A destruição exalava o cheiro da morte e não leve, leitor, este fato no sentido figurado. O podre odor que apanhava as narinas de surpresa era dos cadáveres que em vida, pagaram pela ambição alheia. Em meio a tudo aquilo, a menina olhava para a frigidez do rosto de sua mãe, sem roupas, jogada entre outros corpos, com olhos de vidro, opacos e distantes. Por mais que a menina quisesse chorar, não conseguia. Queria gritar, ir com sua mãe para onde quer que aqueles olhos estivessem olhando, a raiva não a deixava chorar. As vestes já surradas os sapatos gastos, o perfume perdido em olfatos desconhecidos, essa não era a festa que ela esperava. "Filha, vou colocar em você o melhor vestido, o melhor perfume, o melhor laço, hoje é um dia muito importante!" É, de fato foi, mas não no sentido em que a mãe esperava. A menina sozinha fazia contraste com a multidão inerte na sua frente, apesar de viva, não se mexia, não queria, não fazia questão de demosntrar vivacidade, mas afinal, mostrar a quem? Sua mãe sempre dizia que era preciso estar linda para os outros, falar bem para os outros, tocar bem piano para os outros... Agora, a menina só queria fazer tudo para uma única pessoa, cujos aplausos nunca serão ouvidos. Ao longe via-se a imagem da batina, flamejando como bandeira, um estandarte de retidão. "O que viera fazer aqui? Admirar a desgraça, jogar umas gotinhas com um galho de alecrim e dizer que tudo e todos estão perdoados e salvos?" Engraçado. A situação impõe uma maturidade muitas vezes impensada, a menina que outrora só brincava de boneca e nutria predicados para um futuro, muito futuro, casamento, tomava vezes de mulher e como heroína excomungou o padre, a fé, a água benta, a vida. "Maldita seja essa água, essa batina, nada trará minha mãe, nem o seu perdão ou a falta dele!" Aos berros, a criança correu para longe. Não queria estar longe da mãe, o contrário disso. A partir daquele dia, sabia que sua mãe estaria em qualquer lugar, onde ela estivesse, onde ela quisesse estar. E se a Guerra quebra laços, perde amores, causa dores o pós guerra tem com sinônimo a carência, a necessidade de esperanças. Não sei se foi a flor em meio aos destroços tranzendo a lembrança da corrente primavera ou aquele cachorro que acompanhava o cheiro de perfume gasto desde a última esquina, a menina, agora quase mulher por obrigação, abraçou a vida solitária qurendo ser... não ser igual a mãe, nem aos quais têm estampado no rosto o motivo da Guerra. Percebeu que o mundo não precisa de cópias, precisa de revoltas de pensamento, de idéias e princípios, pois os antigos, para ela, ficaram dentro das covas daqueles que ainda acreditavam na melhora vinda dos céus.

Um comentário:

leo disse...

Muito bom o teu texto. Parabéns por ele e pelo teu blog!