quarta-feira, 18 de novembro de 2009

:
e digo não.
ela olhou com firmeza para onde, frequentemente, dormia seu marido. Não tinha mais forças para pedir um retorno, de fato não o desejava. Por mais que anos cheios ao lado de uma pessoa vazia a fizesse feliz em certos pontos, naquela tarde cinzenta dentro do metrô ela se via livre. Sem ter que cozinhar ela comeu o que tinha, lembrou-se de esquecer de lavar a louça e não passou o creme que rotineiramente e com capricho passava na face, não precisava mais ser bela aos modos dele. Pensou em fazer desenhos na pele, colocar brincos além dos convencionais, pensou em de fato aproveitar a juventude que lhe escapara pelos dedos, o anular em especial.
Mergulhou pela primeira vez em seu mundo. Descobriu que gostava de Ballet, que amava Mozart eu que achava Tchaikovsky agressivo, gostos que foram surgindo a medida em que ela adentrava nas suas próprias profundezas.
E o telefone dizia "Maria, eu te amo", ela respondia para ela mesma "Também me amo agora". Jogou o batom rosa-bebê no lixo, ele gostava, ela não. E se ela de fato fosse uma certa magia, uma força divina que nos/se alerta, ela acordou pra vida com a força estranha que vinha do rádio. Se o telefone sussurrava que a amava, o rádio gritava a sua força de viver e não apenas o Nascimento do Milton, foi o nascimento da Maria, a Maria que nasceu foi criada para casar, casou e descobriu que não havia nascido para isso. Amar... a intransitividade do verbo abria a possiblidade de amar ao mundo, à vida e a ela mesma. amei, amou, amarei, amará. Tempo que for, as lágrimas de Maria não mais seriam um nome escorrendo pelo seu rosto, seriam, a partir de agora, palavras de sua felicidade.

6 comentários:

Bruno Batiston disse...

"pensou em de fato aproveitar a juventude que lhe escapara pelos dedos, o anular em especial."
Genial, cara! Adorei o texto, sempre interessante imaginar essas situações de desapego, de abandono, de deixar pra trás aquilo que não te faz mais bem; de coragem, enfim. Sempre interessante, sim, mas meio que doloroso também, dá uma vontade louca de fazer igual, sair abandonando coisas por aí, rs..

N. disse...

Precisamos fazer um compêndio dos teus textos... sério, vou providenciar isso!

ZG disse...

Fazia muito tempo que eu não encontrava algo como o teu blog. Tens minha mais sincera admiração.

Liv. disse...

Gosto da forma que escreve, sem o peso do drama, sentimento puro, leve, real, intenso.

Gustavo Machado disse...

Agradeço pelos comentários! Voltem sempre que for conveniente :)

daniela disse...

Tens uma escrita leve e ao mesmo tempo crítica que trata dos mais diversos temas com a mesma maestria.