quinta-feira, 15 de abril de 2010

Uma historinha de colegial

Ao secar aquela lágrima ela prometia que seria a última a atravessar sua atual triste feição. Sem lenço, com o dorso da mão, ela levava embora toda a tristeza que a fizera sofrer pelo tempo necessário de perder amigos, desejos e sonhos. Ele não estava mais ali e ela mais uma vez sozinha lamentava a sua inutilidade e falta de habilidade de escrever a sua própria história. Sentada no banco que outrora fora cenário de lindos momentos a dois, ela assistia solitária, de camarote, sua grande tragédia.
Tudo parecia mais frio. Aquele vento era mais forte, o sol já não era mais quente, nem ao menos as flores tinham a mesma beleza. Tudo mudara. Agora, a menina que aprendera a caminhar compartilhando passos e dividindo caminhos, teria que passar a trilhar seu destino. O destino é feito por atitudes presentes que trazem conseqüências futuras. Muito se acredita na possibilidade da vida pré-delimitada pelas estrelas ou qualquer coisa que o valha, mas a moça, cansada de ler horóscopos falsos, mapas astrais mentirosos, esqueceu-se do destino e de toda a sua definição, jogou tudo pro alto e jurou não mais chorar.
Em vinte e quatro se repartia o dia, pela metade, o ano se fazia completo em meses e na terça parte disso, o tempo se via em estações, mas a moça, que outrora se fazia em duas, não sabia como poderia ser uma. A indivisibilidade daquela tarde a impedia de olhar as horas no relógio, quem denunciava o passar do tempo era a sombra da árvore que caminhava pela praça como se tivesse pernas, como se pudesse ser gente. “Pudera eu ter raiz”, pensou.
De longe, a passos largados e desajeitados, vinha o motivo de seu choro. Não mais que qualquer outro rapaz, não menos que sua vida personificada em um corpo alheio, permitindo-se do exagero. Ele não era forte, alto e possuidor de olhos claros, mas ele era ele. Aquele que durante o colegial a ignorava, a fazia de tola, mas que no ensino médio resolveu dar uma chance à menina inteligente. Para ela, o mundo fazia sentido com ele, entretanto, o sentimento não era recíproco.
Os olhos já denunciavam, ela havia passado a noite chorando e ele, mesmo não sendo bom em perceber os detalhes femininos tinha uma pequena noção do que tinha causado. “Não foi culpa minha”. Isso não passava de uma desculpa banal, igual a tantas outras que se vê por aí, ela queria mais, queria uma que ele a convencesse de que dividi-lo com alguém, mesmo que por uma noite, uma fração de dia, valeria à pena. Nada mudou a sua opinião.
O muro que separava a menina da verbalização caiu, apedrejando o pudor, a censura interna e as vergonhas ela teceu frases, construiu uma armadura de argumentação com os olhos fixos para uma pedra que repousava calmamente ao lado do tênis do rapaz. Os olhos não. Se ela olhasse para os olhos, tudo estaria acabado, e mais uma vez, a moça boba do ensino médio voltaria a ser a moça boba do ensino médio e a traição seria camuflada pela sua falsa sensação de liberdade, deu as costas e resolveu seguir a vida por si, com suas próprias pernas sem nem ao menos esperar resposta.

3 comentários:

N. disse...

Ai Ai, me arrepio. Me identifico e me arrepio.

Melissa Guimarães disse...

Sinto a frialdade dos olhos como a um perdido talismã com os quais nunca mais me encontrarei.
Bonito o blog, adorei!

Denise disse...

Oii te achei em uma comunidade e acabei entrando aqui ee li seus textos PARABENS achei muitooo lindo nao entendo de textos e talz mais achei não seii nem o q dizerr . parabens.