sexta-feira, 9 de julho de 2010

Da arte de rua ou da rua como arte

A rua é linda, a arte mais ainda. Entretanto, a ideia dadaísta de arte pela arte apenas permeia a teoria. Fazer exclusivamente arte, em um mundo capitalista significa fazer dela seu trabalho. Trabalho. Arte. Para alguns a gradação que precede esta explanação não estabelece um elo e faz do ponto final que separa as duas palavras um abismo impossibilitando a relação. Será? Ao passo que o conceito ‘trabalho’ é maleável e ‘arte’ volátil até onde é possível impedir relações? Ou melhor, será que as relações sempre existiram e não nos damos conta? De certa forma, ambos auxiliam na construção de relações sociais, são semelhantes apesar de distintos. Algumas pessoas, inclusive, associam arte à falta de trabalho ou à ausência de vontade de trabalhar, preguiça. Tem-se a subjetivação da identidade trabalhadora.

Sem querer fazer uma crítica bruta ao capitalismo, às vezes fica a impressão de que o mundo perde suas cores mesmo tendo ciência da gravidade disso. Quanto mais rápidos ficam os passos das pessoas apressadas no meio da rua, maiores são as preocupações e menores as percepções. O mundo dos artistas de rua, por vezes, parece ser paralelo ao usual e, se por um minuto da correria do dia-a-dia alguém para com o intuito de admirar, chora a sua incapacidade de rumar sua própria vida. E mesmo que em dias agitados de Copa do mundo onde o verde briga com o amarelo para ver quem aparece mais nas vitrinas das lojas, poucos param para ouvir as palavras de Leminski ou Drummond proferidas por bocas de outrem. Preferem dar aquela olhadela que se dá ao desprezo e seguir seu rumo, mesmo que mascarado como palhaço alguém grite a falta de essência nos dias cinza da cidade.

E mesmo que um desses palhaços tristes que andam pela rua com uma flor de plástico no bolso lacrimejada por resina diga que o dinheiro não importa para ele, como viver sem comprar/vender/gastar? Estes verbos foram conjugados graças ao desenvolvimento desenfreado do capitalismo, fazer arte em troca de dinheiro é querer trocar valores de origens diferentes. Os artistas de rua não procuram dar valor a um sorriso, estabelecer um preço para o sentimento bom de estar feliz, eles procuram reconhecimento por transformar a arte de fazer os outros felizes um trabalho digno e nobre. É nobre ser um curinga dentro de um baralho de iguais, sublimando as angústias do quotidiano em algo que de fato agrade aos olhos.

3 comentários:

Bruno Batiston disse...

Só consigo pensar que é preciso ter atenção ao andar na rua, mas não aquela que nos fecha em nós mesmos, com medo de tropeçar no meio-fio ou, mais comum, do trombadinha... Outra atenção.

Elnath disse...

Fico imaginando como estaria se eu tivesse tempo para perceber a vida nos mínimos detalhes, me passa tanta coisa despercebida pelas coisas do dia a dia. Céus, não sou mais a mesma, que saudades tenho de mim.
Teus textos estão cada vez melhores! Interessante tua atenção pelo trivial.
Saudades suas também.
Parece que se passaram anos luz!
Beeijos

M. Obregon disse...

"É nobre ser um curinga dentro de um baralho de iguais, sublimando as angústias do quotidiano em algo que de fato agrade aos olhos."

que bonito... e é verdade!