domingo, 17 de março de 2013

Engano

De todo o amor que investia, metade ele convertia em orgulho. Talvez amor não seja a palavra - e o sentimento - mais adequado para a situação. De dentro do seu peito pulsava um querer infame, um desejo gritante. Situada a ação, pode-se dizer que o que ele vivia era uma paixão tórrida e real que lançava ao objeto uma correnteza de libido inebriante. Só que, como era de se esperar de uma paixão tão efusiva, pra não dizer invasiva, o moço desrealizou a vida e perdeu o chão. Andava, portanto, em calços de orgulho que construía através de atitudes que só tinham sentido no seu mundo estranho. Coitado. Afogado em tanto querer, não se agradava de tamanha paixão orgulhosa que saltava de seus olhos, de seus poros, mas como um vírus, ele sentia e, contra sua vontade, crescia como um balão que enche com o fogo, no caso, de paixão. Mas ele não se entregava! Doava-se apenas em metade. A outra ele penhorava em seu orgulho, pra não dizer medo de não-amor.
Não durou mais que duas desilusões esse orgulho apaixonado. Desapaixonou, desiludiu, mas orgulhoso, cuspiu nos olhos calejados de tanta dor que, um dia, viram-no como um futuro bom. Dizendo que fora um engano, como quem liga errado para o número certo e troca de voz pra justificar a falha, o moço deu adeus à projeção que construíra de um outro perfeito, o qual inevitavelmente apenas levava calado o fardo de ser humano.

2 comentários:

Geni disse...

Eu já disse, mas até o teu 'engano' fica em ganho, hihi. Porque, de alguma maneira, é sempre isso que produzes, ganho. <3

Rafael Geremias disse...

Orgulho danado! Ligar errado pro número certo. É só uma coincidência banal.

Seus textos estão ótimos.

Abraço